Somiedo, Terra de Ursos, Sidra e Felicidade

O que inicialmente nos levou ao Parque Natural de Somiedo, não foi mais do que a curiosidade com que fiquei quando descobri que este é o último reduto de Ursos Pardos em estado selvagem na Península Ibérica. A simples ideia de aqui tão perto poder ter a oportunidade, nem que fosse por breves momentos, de vislumbrar um destes animais no seu habitat natural, fez voar a minha imaginação e o Pajero, no meu desejo de conhecer tão fantástico lugar.

Tal não veio a acontecer… se bem que em todo o tempo os meus sentidos se mantiveram em alerta máximo. Sempre que ouvia um qualquer ruído vindo dos arbustos ou perscrutava um qualquer movimento no meio das montanhas, o meu coração batia mais forte e renascia a esperança de que tal fosse possível.

No entanto, em cada aspecto da nossa visita a este Parque Natural, foi possível sentir a omnipresença do Urso Cantábrico e da forma como a sua existência se cruzou ao longo dos anos com a dos habitantes destas montanhas mágicas.

Mas muito mais para ver e sentir, o PN de Somiedo reserva para aqueles que por lá se aventuram.

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Um sinal de alerta novo para nós… Ursos a atravessarem a estrada 🙂
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O mais perto que chegámos de um Urso… pelo menos que saibamos!

Situando-se a sensivelmente 80 kms\ sw de Oviedo nas Astúrias o PN de Somiedo, (que completou no dia 4 de Julho deste ano 30 anos, desde que recebeu a declaração de Parque Natural e Reserva da Bioesfera), é um conjunto montanhoso no encadeamento da Cordilheira Cantábrica. É peculiar pela sua pronunciada diferença altimétrica num território relativamente pequeno, que vai desde os 2194 m no pico El Cornón até aos 400m em Aguasmestas, e por uma vegetação exuberante devido aos altos índices de pluviosidade.

Mas vamos por partes…

Como chegar.

Para localizar melhor aqueles que não têm ideia onde fica, deixo aqui o link do track por onde andámos e como aceder ao PN vindo de Oviedo. Para os amigos do Todo o Terreno, sei que vos vou decepcionar, mas as nossas deambulações limitaram-se ao alcatrão. Confesso.. não estava preparado para explorações mais pelo interior e além do mais, sendo um Parque Natural e Reserva da Biosfera, por diversas vezes nos deparámos com o sinal de proibição a veículos que não estivessem autorizados e por opção não arriscámos!

Assim sendo cá fica para terem uma ideia de onde ir! Track PN Somiedo 

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Onde Ficar.

Devido à sua localização a vila de Pola de Somiedo é o melhor local para assentar arraiais, pela sua centralidade, pela sua beleza, assim como pela oferta de alojamento e restaurantes ali existentes.

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(Dica: É em Pola de Somiedo que se situa o Ecomuseu de Somiedo, onde podemos ter uma ideia mais clara, dos elementos etnográficos que formam e sustêm a cultura rural desta região. Também é possível visitar Centro de Interpretação do PN onde são salientados os valores naturais de Somiedo. Ambos são paragem obrigatória para uma melhor interpretação da vivência das gentes destas terras em tempos idos, e da sua interacção com o meio envolvente. Já para não falar na compra obrigatória de uma “pegatina” para  colar no “coche”!!)

No nosso caso em formato de “caracoleta” optámos pelo Camping La Pomarada de Somiedo.

Link Camping La Pomarada

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Um Parque de Campismo só para nós! Um luxo.

Com excelentes condições, gostaria de salientar a grande simpatia dos proprietários, que desde logo se disponibilizaram com sugestões, mapa e informações relevantes para conhecermos melhor o Parque. O “check In” ao parque faz-se na recepção do Hotel Castillo del Alba (o qual  também me pareceu uma excelente opção para os que optem por não acampar).

Existindo diversas opções no Booking.com gostaria de destacar;

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Sabia que existe uma forma de nos poder ajudar sem qualquer custo adicional e tornar este blogue mais sustentável?

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Onde Comer:

Restaurante El Meirel. O que nos levou a este restaurante foi o burburinho que um grupo de pessoas estava a fazer à sua porta, pois julgavam ter visto um Urso na montanha em frente ao restaurante. Cheios de esperança, ficámos também nós a olhar com toda a atenção e pelo zoom da maquina fotográfica,  por tal possível visão… mas 😦 falso alarme. E já que ali estávamos… espreitei para dentro do restaurante… e gostei logo do que vi. Principalmente a decoração, toda ela com elementos alusivos à história de Pola e ao incontornável Urso Cantábrico. Revelou-se uma excelente decisão. Não somente fomos presenteados com uma excelente refeição de pratos característicos desta região, (Chorizo à la Sidra e umas Croquetas de entrada e como pratos principais uns Escalopines al Cabrales e uma Chuleta de Ternera, acompanhados com uma Sidra que tem a particularidade de ser refrescada na ribeira adjacente ao restaurante!! Divino!!) como o Sr. Juan se revelou um óptimo anfitrião, pois ao descobrir que éramos portugueses e ao perceber a minha curiosidade pelas inúmeras fotografias alusivas à caça do Urso (noutros tempos) que decoravam as paredes, se prontificou a partilhar um pouco da historia e a tradição da Pola.

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O que não vai querer perder no PN de Somiedo:

A Estrada AS-227 – Vindos de Norte, o acesso ao PN de Somiedo faz-se pela AS-227 e passando Aguasmestras toda a estrada até Pola é um deleite para os sentidos. Sempre a acompanhar o Rio Somiedo à distância de um olhar, à medida que vamos avançando, os abundantes campos de pasto vão gradualmente dando lugar ao surgimento dos primeiros penhascos e gargantas. Estes de tão íngremes que são, fazem com que nos sintamos pequeníssimos sentados nos banquitos do nosso carro. É preciso reclinar-mo-nos sobre o tabliet para tentar vislumbrar o topo dos penhascos sem que isso seja possível.

  • Ponto de paragem Obrigatória. La Riera. Pequena aldeia que não tendo muito para contar, revela-nos pela sua arquitectura o rigor dos Invernos em Somiedo. Estamos em Maio e das pequenas chaminés, o fumo que sai mistura-se com a neblina que se faz sentir, criando toda uma atmosfera de mistério e silêncio. Paramos, desligo o motor, saímos do carro com a cabeça ainda meio tonta pelos muitos kms ao som do rugido da nossa FragoneTTe, e ficamos assim em silêncio na ponte sobre o Rio Somiedo. O Rio corre sereno sob a ponte, as gotículas de humidade vão-se acumulando sobre as nossas cabeças e aquela paz invade-nos, penetra em cada poro da nossa pele, e sentimos o stress e cansaço a abandonar-nos, da mesma forma que pelo crepitar da lenha o fumo vai subindo das chaminés, se dissolve e desaparece no ar. É por “clicks” assim que viajar é o melhor remédio.

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  • Ponto de paragem Obrigatória. Central de La Malva. Aqui onde o Rio Somedo é interrompido por uma pequena barragem (explorada pela EDP), existe um parque de merendas. Se não estiver a chover vale bem a pena a paragem, para retemperar forças, comer uma bucha e observar as águas azul turquesa que se precipitam rio abaixo ao passarem sob os nossos pés.

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Pola de Somiedo – É aqui que se concentra a maior parte do comércio tradicional e os centros de apoio ao visitante. É possível visitar a Sidreria Parrilla Caríon, a Igreja de San Pedro, ver os seus milheirais, e vaguear  sem rumo por este ninho urbanístico, rodeado a toda a sua volta pelos  imponentes picos e floresta.

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Visita aos Lagos – Existem diversas trilhas com diferentes níveis de dificuldade de acesso aos inúmeros lagos na parte superior do PN. No nosso caso e como estava a nevar com alguma regularidade, fomos aconselhados a ir de carro até ao Alto La Farrapona. Aí teríamos que fazer um trajecto de pouco mais de meia hora para chegarmos a um dos lagos. Deixo aqui um link onde é possível descarregar o mapa do Parque com a indicação dos diversos trilhos para caminhadas. Sendo que a melhor altura para os percorrer é mais perto do verão. Ah!! e é mesmo que esteja muito calor, banho nos lagos não é permitido 😦

Trilhos de Caminhada PN de Somedo

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Vista a uma BRAÑA – Que não são mais do que casas rústicas de pedra com um telhado feito de  vegetação para guardar o gado nos pastos mais altos durante a estação fria, mas que são características de Somiedo e fazem parte do seu património arquitectónico.

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Alto de La Farrapona – Aqui começam as Astúrias. E teria sido a nossa porta de saída não fosse a neve que se acumulava acima dos 1500mts e que cobria na totalidade a estrada. Ainda assim dos seus 1708mts de altitude a paisagem é de perder de vista.

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A Senda del Oso – Mas isso por si só já é matéria para outro artigo…. deixo um pequeno aperitivo.

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e quanto ao mais… kms e kms de paisagens em que apetece parar a cada curva para gravar em memoria fotográfica a beleza deste lugar.

Talvez porque não tivesse reunido muita informação prévia, o elemento surpresa tenha feito com que a beleza rara e rude deste lugar nos tenha marcado profundamente, fazendo com que os três dias que ali passámos tenham sido demasiado breves para poder absorver toda a energia e magia deste lugar. Por isso mesmo exige-se um regresso, só não sei quando.

Quem sabe, talvez lá regressemos mais rápido do que imaginamos!

Através das vossas fotografias… ficamos à espera!

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Comente, partilhe, dê-nos o seu feedback. Queremos ouvir de si.

Para qualquer duvida, não hesite. ricardo.leocadia@gmail.com

Um grande Bem Haja

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PICOS DA EUROPA 04, SENDA DEL CARES E COVADONGA

… na senda deste nosso último dia a acompanhar a Senda do Rio Cares, depois de temos feito a parte final do mesmo track com inicio em Poncebos ver  Artigo 03 Rota de Cares e de forma a iniciarmos o track na outra extremidade implicava percorrermos todo o caminho no sentido inverso até Potes, daí seguir em direcção a a Riano pela EN 621 até Portilla de La Reina (contornando o PN por Sul), virar à direita, apanhar a LE- 2703 e seguirmos na direcção de Posada de Valdeon e subsequentemente Cain.

Ao contrario de outras vezes deixo para o fim a partilha do track…

Picos da Europa 1ª parte 

Picos da Europa 2ª parte

O video desta segunda parte

In the neddles eye, ou como se diz em português: “onde Judas perdeu as botas” fica Cain. Uma aldeia perdida nas montanhas à qual acedemos por uma minúscula estrada sem saída, e onde tem inicio a Senda del Rio Cares. Vale totalmente cada km feito nos dois sentidos e de igual forma vale a caminhada pelo estreito trilho, que através de túneis e pontes acompanha a vivacidade com que o Rio Cares vai paulatinamente esculpindo o maior vale que atravessa os Picos da Europa.

Deixo pois em ordem cronológica o registo fotográfico deste ultimo trajecto por nós realizado nos Picos da Europa.

Como já anteriormente relatei o caminho em sentido inverso (Riano/Potes) coloco apenas as fotos que nos levariam em primeiro lugar até Cain e posteriormente até Covadonga.

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Mirador del Corzo – Puerto de San Glório
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Portilla de La Reina (onde deixamos a N-621 para apanharmos a LE -2703 no sentido de Cain)
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LE-2703
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Mirador de Pandetrave
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Lembram-se do trilho com inicio em Fuente Dé e que poupava uma data de kms??? é aqui que vem dar…. intransitável!
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A chuva que caía em Poncebos dissipara-se dando lugar a um lindo dia de Sol… mas como tudo na vida também esta circunstância iria mudar!
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Santa Marina de Valdéon
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Mirador del Tombo
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Rio Cares em Cain

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Percorrida parte da Rota de Cares era tempo de nos dirigirmos a Cangas de Onis e a Covadonda. Para tal percorremos em sentido inverso a estrada desde Cain até Posada de Valdeon e aí apanharmos a estrada LE-2711 em direcção a Cangas.

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Mirador de Valdéon
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Sensivelmente 500mts antes de Puerto de Ponton virar à direita pela N-625 no sentido de Cangas
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O lindíssimo Vale do Rio Sella em San Ignacio que nos transporta para um qualquer tempo Jurássico.

E aqui os planos sofreram uma ligeira alteração…. pelo adiantado da hora e em virtude do muito tempo perdido à procura do parque de campismo de Cangas de Onís (que estava fechado), decidimos não visitar a cidade e seguir directamente para Covadonga.

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No silêncio da quase ausência de turistas e pela envolvência da natureza em estado bruto, semi oculta pela neblina, a Basílica de N. Senhora de Covadonga, apresentou-se-nos com toda uma outra aura de misticismo e reverência como que saída de qualquer película fantástica. É neste imponente monumento que repousam os restos mortais de Pelayo, considerado o 1º Rey de Espana.

Pelayo foi aclamado Rei e fundou o Reino das Astúrias embrião dos outros reinos cristãos ibéricos responsáveis pela reconquista da península. Pelágio então instalou sua corte em Cangas de Onís. O Reino das Astúrias foi a primeira região da Península Ibérica que se libertou do domínio dos mouros quando da invasão por estes da Península Ibérica.

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“… no monte Auseva renasceu a Espanha de Cristo com a grande vitória de Pelayo…”

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O significado de «Covadonga», procede de «Cova de onnica» e significa o rio da cova. O sufixo onnica deriva do Céltico onna (“rio”).

É no Monte Auseva, mesmo em frente ao Mosteiro que se pode ver esta “Cova” onde se encontra o principal lugar de peregrinação Católico de Espanha.

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Entendendo eu, que na Península dos Ibéricos a História é uma amalgama de interesses e conquistas, avanços e retrocessos mais ou menos sempre envoltos por fábulas religiosas, deixo este local com um sentido de reverência, não tanto pelo local de culto, mas antes pelo sentido de génese da minha identidade (pós-Celta e Pré Condado Portucalense) e da determinação de um Nobre Visigodo a quem se pode atribuir a “culpa” de uma certa identidade colectiva Ibérica que de facto abraça os nossos dois países “hermanos”. Sendo Português dos 5 costados, não deixo de ser um Ibérico… e isto é algo em que nunca tinha pensado!

Talvez por estas minhas cogitações pouco católicas, a divindade se tenha decidido vingar um pouco 🙂 e a nossa visita aquele que é considerado um dos pontos mais belos dos Picos da Europa, Os Lagos de Covadonga, foi completamente decepcionante… para além do GPS descobri que estava nas margens dos Lagos pela singela placa que indicava “Lago Enol”…

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Bonito Henm??

E é com esta nota positiva que concluo o relato da nossa viagem aos Picos da Europa!

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FIM

Picos Da Europa 03, Poncebos e a Senda del Cares

Diz a sabedoria popular que “Maio que não der Trovoada, não dá coisa estimada”. E foi o caso, deu trovoada forte e feio a noite toda. E de manhã ao abrir os olhos no escuro da tenda, naquele torpor cerebral em que me questiono se já estou na terra dos vivos ou ainda não, imediatamente o meu olfacto foi invadido por aquele inigualável odor ocre a natureza e a terra molhada. De uma assentada dei um salto para fora do ninho, revigorado por este shot de vida e de felicidade. Havia muita coisa estimada para ver e descobrir.

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Ainda que de uma forma um pouco grosseira procuro aqui apresentar (com as linhas a vermelho) como geralmente é dividido o Parque Natural dos Picos da Europa para melhor nos situarmos.

O Maciço Ocidental é geralmente considerado a área que fica compreendida entre o vale do Rio Sela a “Oeste” (a estrada que vai de Riano para Cangas de Onis acompanha este Rio, no fabulástico “Desfiladero de los Beyos”) e a “Este” O Rio Cares,

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No Extremo “Oeste” do Maciço Ocidental, Desfiladero de Los Beyos – Rio Sela
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No Extremo “Este” do Maciço Oriental, Cain – Rio Cares

O Maciço Central fica compreendido entre o Rio Cares a “Oeste” e o Rio Duje que desde Poncebos passa por Sotres e vai na direcção de Espinama, sem contudo lá chegar. Aqueles que fizerem o trilho que nós tentámos (mas não conseguimos devido à neve ver; Artigo 02. Picos da Europa que vai de Epinama a Sotres quando começam a descer, é o rio que vão encontrar a entrecruzar-se com a estrada.

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No Extremo “Oeste” do Maciço Central, Cain – Rio Cares
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No Extremo “Este” do Maciço Central, Sotres – Rio Duje

O Maciço Oriental Fica compreendido a “Oeste” pelo Rio Duje e pelo Rio Deva a “Este” o qual podemos acompanhar quando vamos na estrada que vai de Potes para Panes, e mais uma vez somos surpreendidos pela sua beleza ao passarmos no “Desfiladero de la Hermida”

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No Extremo “Oeste” do Maciço Oriental, Sotres – Rio Duje
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No Extremo “Este” do Maciço Oriental, Hermida – Rio Deva

O que eu achei FASCINANTE é que destes 4 principais rios que acabam por “dividir” os Picos da Europa, 3 podemos acompanhar parte do seu percurso de carro, mas há um (para mim talvez o mais belo) que só o podemos fazer a pé, e esta é talvez uma das Rotas mais turísticas e emblemáticas para caminhantes semi-preguisosos como eu. A Senda del Rio Cares! (Penso que já algures tinha referido que tenho uma GRANDE PANCA com Rios….)

Assim a primeira parte do ambicioso plano deste 3º dia (e que conseguimos concretizar) era contornar o maciço pelo seu lado nascente na senda do Rio Deva pelo “Desfiladero de La Hermida” até Panes onde o Rio Cares e o Rio Deva se reúnem, virar à esquerda na estrada nacional AS-114 (sempre na companhia do Rio Cares) até Arenas de Cabrales (Berço do famoso queijo com o mesmo nome) Queijo de Cabrales. Daí subir em direcção a Poncebos e tantar fazer o trilho (Espinama-Sotres) no sentido inverso, caso não fosse possível, (que não foi), parar a viatura e fazer +/- metade da caminhada da Senda del Cares a partir de Poncebos.

Nota: A Senda del Cares é uma das Rotas mais emblemáticas dos Picos da Europa (para não experientes, como é o meu caso). Geralmente faz-se no sentido Cain-Poncebos e são aprox. 13 kms. Como a Rota de Cares acompanha um desfiladeiro que cruza mesmo ao meio os Picos da Europa, implica duas opções.

  1. Deixa-se o carro estacionado em Cain, faz-se os 13kms até Poncebos e depois faz-se a pé o mesmo percurso no sentido inverso (+13kms) até Cain.
  2. Deixa-se o carro estacionado em Cain, faz-se os 13kms até Poncebos e depois contrata-se uma das diversas empresas/taxis existentes para nos transportarem até Cain de volta.

Nós optamos por uma terceira via… Fazer parte do percurso começando em Poncebos e voltar ao carro, ir de carro até Cain fazer parte da “Senda” a pé e voltar ao carro. Pareceu-nos mais razoável, pois de qualquer forma teríamos que levar o carro até Cain de onde seguiríamos até Cangas de Onis onde iríamos dormir nessa noite. E assim aconteceu!!!

Deixo aqui o video deste dia.

 

A 2ª parte consistia em ir até Cain, fazer a Rota de Cares, depois ir no sentido de Cangas de Onis, visitar o Santuário de Covadonga, subir aos lagos e dávamos por concluída a nossa incursão nos Picos da Europa. Deixo aqui em imagens e por ordem cronológica a história do Dia.

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O acordar com o incomparável cheiro a natureza e terra molhada
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A cusquice das vizinhas…
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Desfiladero La Hermida entre Potes e Panes
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A chuvinha que não dava tréguas
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Rio Cares entre Panes e Arenas de Cabrales (estrada AS-114)

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Chegada a Poncebos

É em Poncebos que se situa o funícular que nos permite o acesso até Bulnes (aldeia na montanha em que o acesso é feito exclusivamente por este meio). Na aquisição dos bilhetes (que não são baratos, sensivelmente 22€ por pessoa) existem duas opções. Comprar ida e volta, ou comprar só ida e fazer o percurso inverso a pé pela montanha (sensivelmente 3 kms). Como o dia se encontrava com nuvens muito baixas e alguma chuva e depois de ler algumas criticas no TriAdviser, optámos por não o fazer. TripAdviser – Funicular de Bulnes 🙂 fica para a próxima….

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Subida de Poncebos para Sotres – Rio Duje
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Trilho Sotres-Espinama (perto de Sotres)
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Ponto de retorno (Sotres-Espinama) com a reduzida visibilidade era irrelevante continuar.

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No regresso a Poncebos
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Inicio (ou fim) da Rota del Cares

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Descobrimos o coração dos Picos da Europa!

O contraste entre a rude exuberância da paisagem e o silêncio, faz com que este seja um “passeio” que merece a pena. Apesar de ser um trilho estreito, não apresenta qualquer dificuldade, basta ter algum cuidado pois não existe qualquer barreira de segurança.

Correndo o risco de “cair” num lugar comum, digo que é daqueles sítios que convidam a parar, ficar em silêncio e absorver tanta beleza e grandiosidade. E nós assim o fizemos!

Mas o dia não estava encerrado. Viajar é como ler um livro, a história desenrola-se a cada virar da página. Podemos ler o resumo, ouvir um amigo contar como termina, ver o “trailer”, mas a menos que estejamos dispostos a seguir o autor em cada virar da página, nunca vamos poder ouvir a narrativa, ver as paisagens ou emocionar-mo-nos com as personagens. Ainda havia várias paginas a serem viradas neste dia e ao virá-las a cada uma delas nos adensámos mais e mais neste tão belo Parque. Era tempo de partir para Cain, e ver a outra”metade” da estória da Senda del Cares. E nós assim o fizemos!

Mas isso fica para o próximo post! 😉

 

 

 

Picos da Europa 02, o dia nem-nem. Espinama, Fuente Dé

Não sei se sou só eu ou é suposto ser mesmo assim, mas regra geral sinto que acabo por ter que comer apenas as migalhas daquele que tinha inicialmente sido o meu grandioso e fantástico planeamento e olha que me esforço mesmo. Desta vez tive a preciosa ajuda do Bruno Costa e do José Guerra na preparação desta viagem, a que desde já agradeço. Um Grande Bem Haja aos dois

Quando preparo os tracks, e coloco as dezenas de wps de pontos de interesse que quero visitar no GPS, creio piamente que vou conseguir concretizar tudo! Mas… acabo por ter que me adaptar às circunstancias que vão sucedendo. Repetidamente sussurro para mim mesmo qual mantra; “o que interessa é a jornada, não o destino”, mas há sempre em mim uma razoável dose de frustração, pelo que lembro ao Ricardo (eu) que da próxima já sei como fazer diferente. Tonterias! Nunca acontece.

É mais ou menos isto

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Este dia foi o perfeito exemplo disso. Daí ter decidido chamar-lhe o dia “Nem, Nem”.

Deixo novamente aqui o link do video que retrata o primeiro e segundo dia de viagem.

 

Foi sentado no alpendre da nossa casa móvel a beber a minha caneca de café, que delineei os últimos preparativos para o dia, e eram promissores!

Plano 01.  Saindo do Parque de Campismo, iríamos apanhar a estrada nº CA-185 no sentido de Potes-Fuente Dé até Espinama. Logo a seguir ao semáforo em Espinama se prestarmos atenção existe uma casa/túnel em que a estrada passa por baixo (é possível ver no video), e a partir dai é seguir a estrada de terra que atravessa longitudinalmente o Maciço Central até Sotres.

O caminho de Espinama-Sotres

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Portillas del Boquejon

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Assim que começámos a subir ao planalto estava prevista a visita às antigas minas de Àliva (presentemente transformadas em Hotel), à Ermida da N. Srª das Neves e ao Chalet Real, estava prevista mas nunca aconteceu… porque num duelo entre o Pajero e um banco de neve, venceu… a pá! Alguém mais sábio e previdente disse… “Olha que não passa!” e eu no meu eterno optimismo respondi, “Paassa, paassa”… Não passou 😦

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Toca a tirar a pá, as pranchas e o Hi-lift e vai de cavar, ao inicio a neve estava fofa, mas debaixo do jipe para libertar o diferencial traseiro, a neve compactada pelo peso do jipe parecia pedra… o que vale é que enquanto cavava a Alexandra teve muito tempo para captar em fotos a beleza da paisagem…. “o que interessa é a jornada, não o destino”, a aventura!

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E eu animado com a actividade física (e por finalmente o jipe estar desatascado), resolvi fazer um video em jeito de National Geographic sobre a vida selvagem e correr atrás das ovelhas, até que do alto do monte comecei a ouvir uns gritos, era o pastor que não achou graça nenhuma à minha veia artística! Estava na hora de Bazar.

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Por morrer uma andorinha não se acaba a Primavera.

Plano 02. Descer até Espinama, passar pelo tunelzinho, apanhar novamente a CA-185 até Fuente Dé, subir no Teleférico e depois a pé fazer o trilho que nos permitiria visitar os locais aos quais não tínhamos acesso de carro! Parecia mesmo um bom plano!

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Teleférico Fuente Dé

Chegados a Fuente Dé, facilmente encontrámos a recepção do Teleférico e lugar para estacionar. Este aquário engraçado pendurado por um cabo de aço, sobe a uma velocidade de 10 metros por segundo uma distância de 1500 metros, de modo que em menos de quatro minutos os passageiros sobem até aos 753 metros de desnível. A pé levaria muito mais tempo. Link para Teleférico de Dé

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A chegada ao topo é soberba, não nos cansamos de olhar para a linha do horizonte e de ficarmos submersos naquela imensidão de silêncio e de majestade. É como se o tempo parasse! Olhamos para o vale e vemos as pessoas como que pequenos pontinhos e sentimo-nos como se estivéssemos noutra dimensão observando a realidade à distância.

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Subimos uns poucos degraus a partir da base do teleférico, para descobrir que um vasto e espesso manto de neve cobria tudo ao nosso redor.

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Olho para o gps e digo à Alexandra; “Olha o track é ali!” resposta… “É ali onde?” Pois… há-de ser ali algures uns metros abaixo da neve… Avançámos, eu sempre com os olhos colados ao gps, a tentar descortinar onde seria o trilho, mas impossível! A cada passo enterrava os pés até à canela, ainda assim continuámos talvez por mais de 750 mts a subir sempre com muita atenção pois devido ao degelo começavam a abrir-se buracos de um tamanho considerável junto às rochas. Sem calçado ou equipamento adequado começavam a esfumar-se as hipóteses de conseguirmos dar seguimento ao plano 02.

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Um buraco derivado do degelo em que eu cabia perfeitamente lá dentro

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Ainda assim subimos até El Butron por onde a neve era mais sólida para tentar perceber como estaria o trilho do outro lado no planalto. E depois parámos! Pelo avançado da hora e pela distância que calculei que faltaria até ao Chalet Real e à Srº. das Neves não era exequível! E sussurrei para mim mesmo 3 vezes…

“Ricardo o que interessa é a jornada, não o destino, Ricardo o que interessa é a jornada, não o destino, Ricardo o que interessa é a jornada, não o destino…!”

Respirei fundo tirei o farnel e piquenicámos, porque a jornada que nos levara ali era de uma paz e beleza subliminar, e eu estava a guerrear comigo mesmo porque EU QUERIA CUMPRIR O PLANO QUE TINHA FEITO!!!!! e com o meu mau feitio estava a perder completamente um momento singular. Digam lá o que acham da “jornada”?

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Com as energias repostas estava na hora de regressar.

No caminho de volta a Potes ainda quis verificar se era possível ou não fazer o trilho que vai de Fuente Dé até Posada de Valdeon, pois este seria um atalho precioso para ir até Cain e à “Rota do Cares”

Para terem uma ideia o que este trilho encurta na distância entre Fuente Dé e Posada de Valdeon deixo aqui uma imagem. A vermelho é o trajecto que tem que se fazer por alcatrão, a verde o trilho.

Trilho Posada de Valdeon

Esta é uma polémica que já tem vários anos, tempos houve em que a circulação era livre, da busca que fiz antes de ir encontrei alguma documentação que dizia que no presente já era possível circular. No entanto quando lá cheguei, deparei-me com o malfadado sinal, e como eu sou moço respeitador e dei a volta aos cavalos… quase 100! E pus-me a caminho! E vão 3… tentativas frustradas… “Ricardo o que interessa é a jornada, não o destino, Ricardo o que interessa é a jornada, não o destino, Ricardo o que interessa é a jornada, não o destino…!”

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Como ainda faltavam umas horitas para o Sol se pôr, ainda tivemos tempo para um pequeno “boucle” com inicio e fim na tradicional aldeia de Brez.

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Eu confesso… o plano não era fazer um percurso circular com inicio e fim em Brez… O plano 04 era iniciar em Brez e terminar em Lon. kkkkkkkkk… mas não vos quero aborrecer mais com tanta frustração, digamos apenas que uma ponte caiu e tivemos que voltar para trás. Quem vir o track vai perceber…

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Para tanto “nem, nem”, até que nem foi um dia mau de todo. “o que interessa é a jornada, não o destino!!!!” Sejam Felizes.

Próximo capitulo Cain, Poncebos e a Rota do Cares. Breve, breve….

Picos da Europa 01. Lisboa-Potes

Nestes dias em que as imagens viajam mais rápidas que as pessoas, e em que fotos de lugares com os quais apenas sonhámos, fazem check in diário nos ecrãs dos nossos tablets e telemóveis, é difícil para alguém como eu, lento e vagaroso, trazer algo que seja notavelmente novo ou surpreendente. No entanto, e não obstante o facto de que quase toda a gente que eu conheço ou já foi aos Picos da Europa ou conhece alguém que lá foi, cabe-me partilhar o simples relato daquilo que foi a nossa viagem.

Deixo aqui o primeiro de dois vídeos desta nossa “Road Trip”

Bem no topo da Península Ibérica na encruzilhada das províncias das Astúrias, Cantábria e Castela e Leão, e com uma vista privilegiada sobre o Mar Cantábrico, encontramos este maciço calcário que se destaca pelas suas altitudes (em muitos casos acima dos 2500 metros) e pela sua beleza selvagem e agreste.

Este é um Parque Nacional, e foi o primeiro Espaço Protegido de Espanha quando em 1918 foi declarado por Afonso XII como o “Parque Nacional de La Montanha de Covadonga”. Pelo que toda a actividade dentro do mesmo é muito regulamentada e vigiada. Pela informação que obtive, só é possível circular pelos trilhos no interior do parque na posse de uma licença específica para tal, ou quando acompanhado por quem a tenha (na maioria das vezes, empresas turísticas que se fazem valer da mesma). Pelo que nem me atreverei a apelidar à nossa viagem de “Overland”, apenas de “Road Trip”.

Mapas das nossas deambulações!mapa picos.jpg

Quem viaja de Sul como foi o nosso caso, o aconselhável será seguir até Leon (pouco mais de 700 kms) e a partir daí seguir em direcção a Riano.

É quando passamos a ponte em “El Albacedo”, pequena vila residencial sem muito para ver e começamos a subir, num suave bailado, serpenteando o Rio Esla, que verdadeiramente sentimos que estamos a entrar no perímetro da cordilheira.  A paisagem é composta sobretudo de prados com gado a pastar, mas progressivamente a estrada estreita, torna-se mais sinuosa e os nossos ouvidos começam a acusar a altitude. Depois de uns “S” mais sinuosos entramos nuns túneis e à saída! Bam! O nosso primeiro choque com a beleza deste Parque.

Diante de nós temos o “Embalse de Riano”, a ponte que o atravessa até à povoação com o mesmo nome, e qual pano de fundo, a dar-nos as boas vindas, surgem os Picos cobertos de neve. Primeira paragem obrigatória para o álbum de recordações.

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Para além da sua beleza Riano também é importante porque é aqui que o viajante deve planear como vai fazer a sua incursão pelos Picos. Aqui situa-se a bifurcação das estradas que levam ou para o extremo Este dos Picos na direcção de Cangas de Onis, ou para Oeste no sentido de Potes.

Sendo os Picos um enorme aglomerados de montanhas de grande altitude, não é possível cruzar o mesmo pelo meio para visitar os diversos pontos de interesse. Pelo que a circulação faz-se quase sempre pelo perímetro do mesmo.  Regra geral, assenta-se arraiais numa destas cidades (ou Cangas de Onis ou Potes), que é onde se encontra a maior oferta hoteleira, e a partir dai, diariamente planeia-se as várias incursões no parque. No nosso caso optámos por Potes.

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Seguindo a N-621 na qual ao contornar as íngremes escarpas da montanha somos muitas vezes cobertos pelas mesmas, subimos sempre, tendo o Rio Yuso como companhia até Llanaves de la Reina. Serpenteamos pela vale em Mansilla de las Mulas, até chegarmos a Puerto de San Glorio.

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Mansilla de las Mulas
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Puerto de San Glorio

A parti daqui é desengatar e aproveitar a paisagem… (estive quase para tirar a bicicleta e saborear a descida)… são vários kms sempre a descer até Bores a partir de onde acompanhamos o Rio Quiviesa até Potes.

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Mirador del Corzo

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Potes é considerado um dos mais belos povos da Cantábria. Situado na comarca de Liébana, deve-o à sua arquitectura, diversas pontes que o atravessam sobre os rios que ali confluem (Rio Quiviessa e Rio Deva) e pela envolvência das montanhas que o rodeiam. É como que um pequeno ninho no meio das montanhas. A parte velha da cidade foi declarada como Bem de Interesse Cultural, existindo documentos que a ela se referem desde meados do Séc. IX.

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Esta seria a nossa base para os próximos 3 dias. Recomendo vivamente o parque de Campismo “La Isla”. Extremamente simpáticos no atendimento, bem integrado com a natureza fazendo fronteira com o Rio Deva, e com boas condições. Camping La Isla 

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Camping La Isla

Para encerrar as hostilidades do dia nada como assistir ao Sunset, sentado numa das muitas esplanadas na Calle de La Independencia a saborear uma Sidra, servida com requinte, e acompanhada de “Unas Croquetas” e un “Chorizo à la Sidra”.

 

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A caminho de uma boa noite de sono.

 

 

Um Povo Movido A Rali

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Corria o ano de 1982 quando pela mão do meu pai, tive aquele que foi o meu primeiro e inesquecível contacto com o Rali de Portugal. Posso recordar como se fosse hoje a onda de entusiasmo e adrenalina que me invadiu à medida que calcorreávamos os vário kms que nos levariam ao troço da Peninha. Para mim tudo era novo, o rio de gente que tal como nós seguia estrada fora, aqueles que nas bermas saudavam a nossa passagem, com mais ou menos cordialidade, os lumes acesos onde entremeadas, febras e um sem fim de iguarias iam alimentado as almas famintas, as minis e os palhinhas, que ao passarem de mão iam ajudando ao riso fácil, à alegria, à festa. A festa do melhor Rali do Mundo, a nossa festa.

Passaram 35 anos e no Rali de Portugal tudo mudou e no entanto nada mudou. Há um povo que é movido a rali e que religiosamente ano após ano se antecipa e prepara para estar presente. O farnel é preparado, as geleiras cheias, as boleias organizadas, as bandeiras saem da gaveta, a indumentária preparada.

Quem são? No pontilhado de cores não os consigo distinguir, são da classe média, da classe alta, do campo e da cidade, jovens e idosos, uns vêm de carro e outros a pé, uns estão sóbrios outros não! De facto não é importante saber quem são, o importante é que fazem parte, e à medida que a molde humana se vai agigantando, o tom da festa sobe de volume e o vozerio ecoa pelos montes… Até que alguém grita… -“Já vêm lá” e aí fica o silêncio para ouvir melhor um outro cantar, o dos cavalos. Silêncio, pode-se sentir o nervoso miudinho no ar, os olhos colados na linha do horizonte, as camaras apontadas, uns nas copas das árvores, outros em bicos de pés, todos aguardam, até que uma onda de pó e uma saraivada de pedras cobre a multidão e ouve-se uma explosão exuberante de gritos, aplausos, assobios e buzinadelas. É a festa do rali. Não desilude.

Segundo dados oficiais este ano terão estado nas estradas portuguesas perto de um milhão de espectadores para assistir ao rali de Portugal. Certamente que algures entre eles está um rapazinho de 12 anos, que um dia irá contar esta mesma história.

A Festa em Imagens.

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À descoberta da Isna

Penso que o também o leitor concordará, que existem coisas na vida que exercem um determinado fascínio sobre nós, mas para as quais não temos qualquer resposta conclusiva ou causa óbvia! São os pequenos pensamentos, as duvidas que nunca ousamos verbalizar ou as coisas das quais gostamos mas quando questionados sobre o porquê desse gosto, apenas somos capazes de rematar com um titubeante… Epá não sei porquê, mas gosto!

Eu padeço deste mal. No meu caso, não há vez que esteja na foz de um rio, que passe por uma qualquer ribeira ou ponte, sem que das catacumbas do meu cérebro não me surja a mesma pergunta!!! Hum… onde será a nascente deste rio? Como será o sitio onde nasce? E aquilo fica a matutar-me na ideia!

Sinto um magnetismo que me atrai aos rios, gosto de fazer trilhos que os cruzem, que os acompanhem, que se entrecruzem com eles. De alguma forma na minha cabeça, seguir um rio de jusante para montante é como encontrar alguém, um desconhecido, numa fase avançada da sua vida e como que por magia ir avançando no sentido contrario ao do relógio e ir retrocedendo pelas diversas fases da sua vida, até ao seu berço, ao seu nascimento. Até ao ponto em que não é mais um desconhecido.

Sim! Pensando melhor, gosto de rios, porque não deixam de ser um espelho daquilo que é a nossa própria passagem pela vida. A nascente, que geralmente não passa de uma pequena poça, ou um regueiro debaixo de uma pedra, a forma como à medida que crescemos, nos vamos juntando a outros afluentes, engrossando o nosso caudal, e nos vamos mesclando na Humanidade.

O espalhafato da juventude numa cascata ou a acalmia da velhice ao desaguar num qualquer lago ou no mar. A viajem e as paisagens que desfrutamos à nossa passagem, aqueles que encontramos nas margens e aqueles de quem nos despedimos, as montanhas, os vales, os campos, os relacionamentos, as alegrias, as tristezas. Mas este espelho reflecte também a dura realidade de que o dia que passou, não volta atrás, este caudal é incontível, irrepetível, corre feroz em direcção ao mar. Como disse muito bem Heráclito de Éfeso; – “Nenhum homem pode banhar-se no mesmo rio duas vezes… Pois na segunda vez o rio não é mais o mesmo nem tão pouco o homem.”

Esta é a historia da Isna, ou melhor, como ela se nos deu a conhecer num fim de semana de Páscoa.

A biografia da Isna ou como alguns mais modernos lhe chamam… O Track

A narrativa daquilo que Isna nos deu a conhecer com banda sonora,

 As Fotos

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Momento em que a Isna deixa de ser Isna e passa a ser caudal do Zêzere
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À passagem pela Ponte Romana de Palhais
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Identificado no track, excelente local para Bivouac e banhoca. O trilho chega perto da água.
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Ponte da Cova do Moinho

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Água e mais água e mais vida e mais tranquilidade e paz
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🙂 e aventura
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Ponte da Tamolha
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Bivouaquing…. not so secret spot. Praia Fluvial do Marmeleiro

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Manhã submersa dia 02

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Ponte dos Três Concelhos
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Praia Fluvial Pego das Cancelas

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Junto a Maljoga
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Praia Fluvial de Aldeia Ruiva
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Parque de Campismo Eventur 
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Praia Fluvial de Aldeia Ruiva

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Praia Fluvial do Malhadal

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Com muita chuva Atenção a esta passagem!!! Verificar antes.

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Barragem de Corgas

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A Fonte do Rei na povoação de Isna, mandada construir pelo Rei D. Carlos I a pedido das mulheres da aldeia em 1903

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Já perto da provável Fonte da Isna
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O que se nos assemelhou como a nascente da Ribeira de Isna depois de muito procurar no meio do silvado.

O Ser Mitológico disfarçado de árvore (para que os Homens não suspeitem) que guarda a(s) nascente(s) da Isna.

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Dois dias depois e 100 kms percorridos é legitimo que o leitor nos coloque a questão!

-” E a fonte da Isna? Encontraram-na?”

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Não sei, talvez, mas encontrámos algumas pequenas fontes que brotavam em duas ou três regueiras, pequenas linhas de água, que se juntavam e que ao chegarem ao vale se tornaram num rio. Mas também não é assim tão importante pois não? Percorremos as suas margens, cruzámos as suas pontes, ouvimos as suas historias, vimos as suas gentes… e hoje dormiríamos ao som das suas águas. Para nós a Isna deixou de ser uma estranha!

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Começo da Ribeira de Isna, somatório das varias regueiras que desaguam neste vale.

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03. Rota Vicentina, Odeceixe-Sagres (Bikepacking)

Foi ao tocar com a cabeça no tecto da tenda que me apercebi! Os pedacinhos de gelo que caiam sobre mim eram resultado da condensação que se tinha transformado em gelo. Sacudi o mais rápido possível este inesperado banho que me molhava a cabeça e peguei no telefone para ver as horas… 3 da manha! A ténue luz do telemóvel revelava o vapor gelado que saia da minha boca à medida que respirava. Ui! A noite ia a meio e eu estava completamente gelado. O rolo de roupa que tinha vestido parecia agora que em vez de manter o frio fora do saco cama o estava a conservar dentro, não conseguia aquecer. Levantei-me, coloquei a lanterna na cabeça e sai da tenda! Até onde a luz alcançava estava tudo branco. O chão estava coberto por uma camada de gelo. Que temperatura estaria? Não sei, mas estava muito frio. Calcei as luvas da bicicleta, vesti o blusão, mais um par de calças e qual figura fantasmagoria no meio da noite por ali andei a saltar e a bracejar para gerar algum calor. Voltei à tenda vestido com tudo o que tinha para vestir, com o gorro colocado, enfiei a cabeça dentro do saco cama para conservar o pouco calor que o meu corpo emanava e na esperança que a minha respiração ajudasse por pouco que fosse a manter uma temperatura mínima que me permitisse adormecer.

Co-co-ro-co-co… fez um galo nas redondezas. Cinco da manhã. O corpo estava completamente dorido, dos kms, da tensão causada pelo frio e da posição fetal em que me encontrava devido à tentativa de me manter todo enfiado dentro do saco cama, cabeça incluída! Sem pensar duas vezes saltei para fora da tenda, não sem que antes me lembrasse daquele bonito pregão que aprendi na tropa. – Não está chuva nem orvalho… está é um frio dos…GRANDES 🙂 De lanterna na cabeça fui aos alforges da bicicleta tirei as acendalhas (bendita a hora em que me lembrei de as levar) e nem 5 minutos depois, no meio de nenhures, sentia o reconfortante bailado das chamas a iluminarem-me o rosto e afastar aquela aura de gelo que me rodeava.

Mas pouco passava das 5 da manhã! O que fazer? Estava completamente escuro. Não conseguia levantar o acampamento e por-me a andar! CAFÉ… o que isto precisa é de um cafezinho, pensei. Com dificuldade lá consegui despejar a papa de água gelada da garrafa para o púcaro e por ali fiquei de volta do lume enquanto a água fervia para o café! Lembrei-me do diga bom dia com Mokambo e sorri. Antes isto que o trânsito na ponte!

O video do terceiro dia.

 

Café e pão torrado! Assim se começa o dia!

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As primeiras horas da manhã foram gastas a comer qualquer coisa e a tirar fotos da espectacular madrugada. A maquina fotográfica estava de tal forma gelada que o autofocus não funcionava e uma bateria nova pouco mais deu do que dez fotos.

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O corpo esse estava todo dorido, os movimentos pareciam ser em câmara lenta e assim que os primeiros raio de sol me alcançaram senti a fadiga e sono a abaterem-se sobre mim. Sentei-me o melhor que podia e deixei que aquelas ondas de energia me embalassem acabando por adormecer.

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Já deviam ser 9:00 quando despertei do turpor em que me encontrava, rapidamente comecei a arrumar tudo só que agora tinha outro problema. O gelo que envolvia a tenda tinha derretido estando esta completamente ensopada. Não a podia enrolar assim, significava que na noite seguinte iria dormir numa tenda molhada  e se voltasse a estar o mesmo frio isso era inconcebível. Tinha que arranjar um estendal!

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Tarde, muito tarde fiz-me à estrada, tal como no dia anterior a bateria do telemóvel tinha falecido, pelo que teria que repetir a estratégia do dia anterior e encontrar um café onde pudesse dar um pouco de carga que desse para aquele dia. Odeceixe aqui vamos nós!

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Eram exactamente 10:30 quando de estômago reconfortado por uma sandes de presunto e um galão arranquei de Odeceixe. Inicialmente devido ao avançado da hora ponderei seguir por alcatrão até Maria Vinagre, mas decidi antes seguir o track que me levou pelo vale da ribeira de Seixe e mais um fantástico single track a acompanhar o canal de regadio até ao Parque de Campismo do Serrão em Aljezur.

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O Sol fazia agora uma generosa demonstração da sua presença exorcizando o frio e as memorias de uma noite em claro. A caminho de Aljezur!

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Depois de um rapido reabastecimento, sobretudo de água era tempo de fazer um ponto da situação. O track apontava no sentido da Arrifana, seguindo depois ao longo da costa pela Praia do Canal (com a sua fantástica descida), Praia do Penedo e Vale de Figueiras até chegar à Bordeira com a voltinha pela falesia até à Praia do Amado, mas só essa parte do percurso eram 40 kms e esses tracks já eu conhecia bem ao volante do Pajero! Ver aqui Post .Pelo que a decisão era óbvia se queria ver o pôr do Sol no Forte de S. Vicente. O plano passava por ir até à Carrapateira por alcatrão onde a média horária é sempre superior, almoçar, e quando acabasse a subida a seguir à Carrapateira virar à direita na zona dos moinhos de vento, apanhar novamente a GR11 e seguir pelo planalto até Sagres.

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Sinalética na Carrapateira que indica as duas principais rotas que por ali passam
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Lunch Time

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Foi quando passei a zona do marco geodésico a seguir à praia do Amado que me aproximei novamente da falésia e foi quando a força do vento se começou a fazer sentir novamente. A principal diferença era que agora o vento soprava de sw ao contrario dos outros dias que era nortada pelo que agora tinha que permanentemente lutar contra o vento, parecia que agora pedalava com o travão de mão puxado e com dois pneus furados. Desde Odeceixe levava agora já com quase 70 kms e a factura dos kms percorridos e das noites mal dormidas faziam-se sentir. Aqui e ali quando puxava mais pelas podia sentir umas mini caimbras nos gémeos. Mas a antecipação da chegada, o deslumbramento com a paisagem e a adrenalina de ver o sol a baixar rapidamente na linha do horizonte fizeram com que estes últimos kms tivessem voado.

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Sagres à vista!!!

Saí disparado da pista e entrei na estrada de acesso ao Farol de S. Vicente e tal era o meu frenesim que nem me apercebi que vinham dois ciclistas na estrada e por pouco não choquei com eles (ver minuto 2:21 do video). Também eles se degladiavam contra o vento frontal e quase sem fôlego ambos vociferámos um ruidoso “Hi we are almost there” e sorrimos um para o outro com a antecipação de vitoria como dois camaradas de armas prestes a conquistar a fortaleza inimiga tão ambicionada. Como que a brindar a nossa solitária conquista também os céus sorriram e num ultimo suspiro de luz o grande caminhante do céu despediu-se de nós fazendo reflectir todo o seu esplendor qual quadro a óleo saído das mãos de Monet.

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E foi assim, imerso na grandeza da paisagem que dei por concluída esta minha aventura… ou quase, porque passada a emoção do momento (e foi grande) é que me lembrei que ainda tinha que encontrar um lugar para dormir, e agora já era noite escura. A paisagem nesta zona é toda ela muito árida, não existindo um “recanto” onde me pudesse esconder, lembrei-me de um “sitio secreto” mas esse ficava a pelo menos 4 kms de distância e pelo meio do mato, e da última vez que lá tinha pernoitado tinha sido brindado com a visita de uma família de raposas…o que do cimo da tenda de tejadilho até é engraçado, mas numa tenda no chão não me agradava assim tanto a ideia.

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Pelo que me rendi aos luxos da vida moderna e decidi fazer os 7 kms que me separavam do parque de campismo da Orbitur em Sagres. Decisão mais que acertada pois permitiu-me tomar um banho renovador que me soube à vida, manter o equipamento resguardado e jantar no luxuoso telheiro das maquinas de lavar roupa, pois a chuva essa já caia e em força.

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Fim

Próxima publicação – Caminho de Santiago.

Até já

Ricardo santos

02. Rota Vicentina Vale de Éguas-Odeceixe (Bikepacking)

O nascer do sol neste segundo dia era agora revelador de algumas maleitas! Nas pernas, da serra e do peso da bicicleta, no corpo do frio e vento que não parou toda a noite, e na alma, em consequência do telefonema angustiado da mãezinha na noite anterior, depois de ter visto no FB o lugar de pernoita!! Maldito sejas Facebook! #$%&

Mas agora era tempo de saltar para fora da tenda libertar-me do enchourissado de roupa que me tinha mantido quase quente durante a noite e pôr o circo na estrada.

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Ups! Primeiro percalço do dia. O powerbank que tinha para dar carga ao telemóvel, não somente não carregou, como descarregou o resto do telemóvel. Viajar sozinho em autonomia é uma coisa, fazê-lo incomunicável é outra (não sou nenhum inconsciente).

Prioridade do dia, encontrar uma povoação onde pudesse dar carga suficiente ao telemóvel de forma a estar comunicável. Onde estou? Não sei,  ainda ontem ao cruzar-me com um conterrâneo, da minha meia costela alentejana perguntei:

– Boa tarde, o Cercal ainda fica muito longe? Resposta…. Nã, nada disso é já além….

Rápido aqueço a água para o reconfortante “Mokambo” e claro que digo “Bom dia com Mokambo!!”, misturo a minha comida de alpista matinal com leite, como, visto-me arrumo tudo e ponho-me a caminho. It´s a beautifull windy day!

O video deste 2º dia

Pelo que vejo no Garmin a povoação mais perto é Vale de Éguas, faço figas para que lá haja um café, mini-mercado… qualquer coisa, preciso mesmo de carregar o telemóvel.

São 8.30 da manhã, a falta de pratica fez com que levasse mais tempo do que queria a arrumar o equipamento, queria fazer-me à estrada bem cedo, mas não vai ser hoje. Subo para a montada e arranco. O Alentejo nunca desilude!

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É em pleno Vale de Éguas que se situa o Café Fonseca, centro nevrálgico da vida social desta povoação Alentejana. Paro a bicicleta à porta, os convivas que se encontram sentados na esplanada, não disfarçam o olhar, pelo contrario, quais peritos, observam atentamente cada pequeno movimento que faço. E quando menos espero, de um deles, que de um só movimento acrobático consegue mover o palito de um canto da boca para o outro, surge a pergunta… – Atão home ponde vai? Isse é que vossemecê leva ai um carrego!!! Ahh, pois…. vou até Sagres (respondo eu), o senhor sabe dizer-me se o Cercal fica longe? Resposta… Nã, nada disso é já além…  😮  !!!

Não era, já tinha feito 8 kms desde que tinha saído do acampamento e para o Cercal faltavam mais 17 kms. Contabilizando a média horária, os kms que tinha feito no dia anterior, a altimetria do track pela Serra de S. Luis, o tempo que a D. Maria levou a preparar uma soberba sandes de presunto e eu a consumi-la com uma fantástica mini preta, enquanto carregava o telemóvel, tudo junto, e era hora de mudar de planos. Não era exequível conseguir fazer os quase 90 kms para aquele dia quando já era quase meio dia.

Plano B – No Cercal fazia a transição e saltava da “Rota Clássica” para a “Rota dos Pescadores” (Ver  01. Rota Vicentina )

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Apesar de a paisagem estar razoavelmente verde (tinha chuviscado na semana anterior), é assustador quando nos apercebemos o nível de seca que o Alentejo enfrenta.

Neste mapa podem ver a dimensão da barragem de Campilhas quando está com uma cota “normal” de água, os WP assinalam onde tirei respectivamente a fotografia nº 01 e a n º02, dá para perceber pelo track que fui praticamente até meio da barragem.

Foto Barragem

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Foto tirada no wp 01 este vale devia ser uma ribeira a desaguar na barragem
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Foto tirada no wp 02 sensivelmente a meio a barragem
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A chegada ao Cercal, agora vamos por ali… V.N. de Milfontes

Do Cercal a Vila Nova de Milfontes não há nada a contar a não ser 14 doces quilómetros de alcatrão a descer… completamente ao sabor do vento e carregada como a bicicleta ia, tão suave que deslizou no alcatrão!

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Rio Mira

É quando acabamos a subida depois do Rio Mira que surge à esquerda uma estrada de terra que nos leva até à bonita planície no sopé da Serra de S.Luis… Lá ao fundo aquilo a que escapei.

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Gostaria de salientar que a Rota Vicentina, não vira à esquerda como fiz, mas à direita em direcção às “Furnas”, só que esse caminho já o fiz de jipe e sei que é só areia solta impossível para a bicicleta, dai a ter criado esta alternativa, e não me arrependi NADA!

Agora que o vento tinha dado tréguas, rolar calmamente pela planície a ouvir o suave murmurar dos pneus sobre a terra, a cruzar-me aqui e ali com as aguas calmas e refrescantes do canal, o sentir do suave contacto dos raios de sol sobre a pele, fazia parecer que, o vento e o frio da noite anterior se tinham passado numa qualquer outra viagem e tudo o que sentia era uma enorme sensação de felicidade e bem estar.

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Retas, retas, retas… estufas, estufas, estufasssssss! Não me vou adiantar muito, mas, como é que é possível que um Parque Natural… porque é o que esta escrito nos mapas, esteja FORRADO a plástico, com culturas intensivas e carregadas de químicos. Apercebi-me que a estratégia para o ocultar é fazer autenticas barreiras de arbustos na berma da estrada, mas o gato tem o rabo de fora. Muito mau!

Longueira, Almograve, Cavaleiro…. Cabo Sardão!

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Cabo Sardão-Porto das Barcas. Este é dos trilhos mais lindos que conheço junto à costa, são 8 kms de bom piso, de acesso fácil completamente encarrapitado sobre as falésias. Por mais vezes que passe aqui não me canso da imensa beleza deste trilho.

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Chegar à Zambujeira do Mar numa Sexta-Feira de Fevereiro é como entrar numa qualquer cidade pós catástrofe nuclear!! Não se vê vivalma. Junto à igreja estão dois jovens com feições da Ásia Central, Bangaladesh? Talvez! Posteriormente já a caminho do Carvalhal cruzei-me talvez com 4 ou 5 de bicicleta que parecia estarem a sair de uma das estufas??? !! Nas esplanadas da rua principal 1 pessoa na esplanada, de resto nada apenas silêncio e porque o Sol começava a declinar, rapidamente zarpei em direcção ao Carvalhal.

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Capela da N. Senhora do Mar na Zambujeira
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Praia do Carvalhal

Chegado ao Carvalhal pelo sossego e beleza ainda ponderei pernoitar por aqui, decidi não o fazer e avançar mais kms para não acumular tantos kms para o último dia. Além do mais conheço um lugarzinho especial em Odeceixe, que já sei lá chegar de olhos fechados. Um encanto!

Quem sobe do Carvalhal em direcção à estrada N 120 passa pelo Brejão, e é aí mesmo (de carro não dá) que virando à direita a seguir ao Mimercado da Xana 🙂 , que vai encontrar um “single track” que acompanha o canal de regadio mesmo até Odeceixe. São cerca de 6 kms deliciosos a serpentear entre uma e outra margem do canal, particularmente bonito ao final da tarde quando os últimos raios de Sol se espelham nas águas do canal.

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Chegada a Odeceixe já com o Sol no horizonte.
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A descida “radical” para Odeceixe, principalmente quando a frente da bicicleta está pesada, e os alforges traseiros não permitem uma deslocação do corpo para trás.

… e por fim chegado ao Algarve! A ponte que é a passagem para o “Reino dos Algarves”

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Já no lusco fusco, de lanterna na cabeça, montei o acampamento, pus em ordem o que era necessário, fiz o lume, sentei-me, jantei, e no conforto do lume pensei para comigo mesmo….

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“Pelo menos hoje não há vento e não está tanto frio como ontem, hoje vou descansar melhor, que bem que preciso!”…….

Ou então, não, mas isso fica para o próximo relato!

 

 

01. Rota Vicentina Tróia-Vale de Éguas (Bikepacking)

Mapa

Com este artigo início um novo capitulo no nosso blogue. Se até aqui todos os posts foram relativos às viagens que fizemos no nosso jipe, neste novo capitulo a viagem foi feita em bicicleta. Obedecendo completamente ao espírito que nos tem guiado nas nossas viagens de jipe (autonomia total, viajar pelos caminhos menos trilhados e tendo por base um track previamente preparado) esta viagem percorreu a Costa Vicentina tendo inicio em Tróia e terminando em Sagres.

Quanto à viagem em si, havia logo de inicio duas possibilidades. Ou percorrer a chamada “Rota dos Pescadores” que está identificada a azul na foto, ou a “Rota do Caminho Histórico” que na foto está identificada a verde.

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Sabia antecipadamente que a “Rota Histórica” era mais exigente a nível físico, mas como já anteriormente tínhamos realizado toda a “Rota dos Pescadores” de jipe, optei por iniciar a minha viagem pela “Rota Histórica”, e em função da quantidade de kms que conseguisse percorrer diariamente, se necessário poderia sempre optar pela versão mais “light”. O que veio a acontecer visto apenas ter 3 dias para percorrer os quase 300kms que o track me apresentava.

Mas primeiro cabe apresentar a “viatura”…

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No essencial é a bicicleta que já tenho à vários anos e que nunca se tinha visto neste tipo de aventuras, com algumas adaptações para me permitir transportar TUDO o que é necessário para 3 dias de viagem em autonomia. Assim à frente é possível ver os dois “rolos” que continham a tenda, colchão e o saco cama. Reservas de água, para beber e para cozinhar. Alforges traseiros com, roupa, material electrónico (baterias, carregadores e cartões de memoria), comida, lanterna, fogão, muda de roupa quente para a noite e ferramentas. Desta vez não foi preciso levar o hi-lift nem as pranchas de desatasco 🙂 !! Ainda assim o peso do conjunto era substancial.

Para navegação usei o Garmin Montana, que tantos kms tem no Pajero e que nesta nova modalidade se revelou espectacular, pela sua fiabilidade, autonomia de bateria e possibilidade de utilização de pilhas AA, o que permite substituir a bateria quando não há possibilidade de a carregar.

Por falar em GPS deixo aqui o Link do Track 

Deixo também o link do video do primeiro dia da viagem.

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Então e a viagem??? Tendo já anteriormente feito uma incursão deste tipo até Santiago de Compostela em bicicleta (Post que posteriormente farei) em que a principal diferença foi o facto de ter pernoitado em residenciais, estava consciente de que a principal adversidade era não somente o cansaço dos kms, mas o facto de acampar e como tal não ter as mordomias de uma boa refeição, um banho retemperador, uma caminha quentinha e o abrigo das intemperies… ainda mais numa semana em que o IPMA lançava o aviso amarelo devido ao forte vento e as baixas temperaturas!

Estando consciente das adversidades posso dizer que a viagem foi um sonho! O sentido de descoberta, o sentimento de isolamento ao andar “perdido” pelas serranias, a consciência dos elementos que nos rodeiam, os cheiros, o vento, a paisagem que passa calmamente, o contacto com a natureza, a conquista de uma subida mais íngreme, a adrenalina na descida e que nos faz esquecer do cansaço da subida que a antecedeu, tudo isto é potenciado pelo facto de não estarmos “fechados” e sentados ao volante. Para mim que já tenho uma mão cheia de kms em “Overland” é de facto o descobrir de uma nova dimensão da paixão que tenho por viajar. E claro, no fim, a chegada ao destino, é o sentido de conquista de um objectivo. Apesar do cansaço, na viagem de regresso (de comboio), a cabeça já vem a sonhar com novos objectivos, com novas conquistas.

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O primeiro dia começou bem antes de o Sol nascer, a ideia era apanhar o 1º Ferry da manhã em Setúbal para fazer a travessia até Tróia. Estando fresco e sabendo que os primeiros kms até Melides seriam sempre em alcatrão, queria tomar vantagem para adiantar o máximo de kms possíveis pois sabia que assim que entrasse na serra em direcção a Santiago do Cacem as dificuldades começariam. E foi o que aconteceu.

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Em Setúbal a Lua ainda ia alta.
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Tróia ao nascer do Sol
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Os arrozais na Comporta
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Serra já depois de Melides em direcção a Santiago do Cacém
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Santiago do Cacém

Todo este trajecto até Vale de Éguas onde pernoitei a primeira noite é lindíssimo, duro mas lindíssimo,  a paisagem é sobretudo composta por sobreiros e azinheiras, onde no topo dos montes é possível vislumbrar o mar e a linha da costa. Para os meus amigos jipeiros será também relevante dizer que a parte do track respeitante ao primeiro dia dá para fazer de jipe. pelo que os mais perros das pernas podem perfeitamente disfrutar deste lindo percurso!

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Apesar de o percurso ser maioritariamente caminhos florestais, a dificuldade prende-se sobretudo com a altimetria, pois é um constante sobe e desce, e pelo menos duas vezes tive que desmontar da bicicleta e subir a pé tal era a inclinação… numa delas se fosse de jipe, teria que ser mesmo em 4 LWD , pois tinham andado umas maquinas de rastos e o caminho estava mesmo muito estragado.

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Parece fácil?? Vão lá e depois contem-me como foi!!

A outra dificuldade prendia-se com o vento que se fazia sentir, de tal forma que para conseguir montar a tenda, tive que deitar a bicicleta sobre a tenda para conseguir pregar as estacas.

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Tal como no jipe o procurar de um lugar para dormir é outra preocupação, é desejável que seja um lugar abrigado e discreto, neste dia a dificuldade foi que quando chegou a hora de procurar “poiso” estava numa zona de herdades todas elas com cancelas, pelo que o que se me apresentou como a melhor solução foi um velho “monte” abandonado relativamente isolado, o que me permitia fazer uma pequena fogueira pois o frio estava a apertar e criava uma barreira natural contar o vento que como já referi era muito!

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A janta
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Estava frio? Horrível, muito mesmo!

E o vento? Parecia o Everest!

Estava cansado? Depois de quase 90 kms, sim!

Mas depois das emoções do dia, depois de uma refeição quente, estar sozinho, na mais completa escuridão e em total silêncio junto à fogueira e assistir a este nascer de Lua, não desejava estar em qualquer outra parte no mundo! A isto meus senhores chamo Felicidade.

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